Fundador: Padre Domingos de Sousa - Director: Padre Jorge Carvalhal - Propriedade: Fábrica da Igreja de Canas de Senhorim
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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Entrevista a Hélder Ambrósio Presidente de Direcção da AHBVCS



Hélder Ambrósio assumiu a presidência da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Canas de Senhorim depois de ter sido durante 5 anos Presidente da Assembleia Geral e Tesoureiro quanto tinha 23 anos. Aliás, um homem dedicado á causa comunitária pois, para além deste cargo, foi um dos fundadores da Mega Radio e da União Cultural e Recreativa do Rossio, colaborador durante 8 anos no Jornal de Canas de Senhorim, na Lusa e no JN (num tempo muito curto). No campo desportivo foi Tesoureiro do GDR Canas de Senhorim. Desde 1994 é Diretor do Centro Social e Paroquial de Canas de Senhorim e desde 1998 Secretário do Conselho Paroquial para os Assuntos Económicos. Com a ajuda dos meus colegas na elaboração das questões fui ouvir este homem “dos sete ofícios” quando se trata de trabalho comunitário e em prol da sociedade civil sobre estas novas funções para que foi eleito:


Fernando Neto – Amigo Hélder, quais são as principais prioridades do plano de acção para o mandato que agora começam?

Hélder Ambrósio – Em primeiro lugar queremos agradecer a preocupação que o jornal “Canas de Senhorim” tem tido na divulgação dos assuntos dos nossos Bombeiros. Sublinho “queremos” porque todas as decisões têm sido tomadas em reunião de Direcção. Se num ou noutro assunto as coisas não correm tão bem quanto o desejado, a responsabilidade é de todos. Assim como é de todos os resultados positivos que se têm obtido nos processos que vão decorrendo. Desta forma de pensar e de agir temos colocado à disposição, sem qualquer reserva, toda a informação ao Sr. Comandante, que está sempre presente nas reuniões de Direcção, intervindo de uma forma activa e interessante e colocando as questões que vão surgindo e os projectos que vale a pena levar a efeito para o engrandecimento da nossa Associação. Só teremos êxito se trabalharmos em equipa, com entusiasmo e sentido de missão. Desde 17 de Dezembro até hoje temos tentado colocar na nossa agenda um bom ritmo de trabalho. Já reunimos duas vezes com a Câmara Municipal de Nelas. Além da nossa apresentação, levámos a intenção de promover algumas acções que vão ao encontro do bem-estar das populações da nossa área de intervenção, abordámos o apoio que a autarquia poderia reforçar nos serviços de urgência, na reabertura da biblioteca e analisámos, já nessa altura, os problemas que a Associação estava a ter com o atraso do pagamento da comparticipação da autarquia para as obras de ampliação do quartel. Uma outra reunião obtida com resultados extremamente positivos foi a realizada com o Sr. Dr. Carlos da Cunha Torres, da Fundação Lapa do Lobo. Esta prestigiada Fundação, neste mar de crise, vai manter o seu apoio aos nossos Bombeiros, dando-nos dessa forma um pouco de alento para ultrapassarmos as nossas dificuldades financeiras. Por outro lado, já reunimos com as Juntas de Freguesia de Canas de Senhorim, Aguieira, Lapa do Lobo e Santar. Aguardamos reuniões com as Juntas de Carvalhal Redondo e de Moreira. O propósito destas reuniões é ir ao encontro das preocupações dos autarcas em termos da prevenção dos fogos florestais, indicando os caminhos que necessitam de alguma intervenção para a passagem das viaturas de combate a incêndio. Uma outra vertente interessante é promover acções de sensibilização para a causa do voluntariado e dar a conhecer a forma mais rápida para que o socorro chegue ao sinistrado. Em análise desta Direcção estão os protocolos que vão ser celebrados com o GDR e o Agrupamento de Escolas de Canas de Senhorim. Como já verificou as nossas atenções e as nossas prioridades têm sido direccionadas para a nossa principal missão que é a protecção da vida e dos haveres das pessoas e, logicamente, para estarmos sempre no nosso melhor. Os equipamentos são sempre uma preocupação constante. Falando de equipamento, permita-me referenciar, entre outros, o processo de aquisição do VUCI (veículo urbano combate a incêndios), até porque vai ser uma mais valia para todo o concelho no combate aos incêndios urbanos e industriais. Depois da candidatura feita e aprovada na anterior Direcção, onde teve uma acção charneira o Dr. Alexandre Borges, à semelhança da candidatura para a requalificação do nosso quartel sede, a entrega da viatura teve um significativo atraso motivado por uma série de razões, uma das quais foi o grande volume de candidaturas efectuadas através do QREN e respectivas adjudicações. Feita essa travessia no tempo, finalmente a viatura, no momento em que estou a responder às suas questões, vai ser entregue brevemente. Deixe-me segredar que já nos deu muita preocupação.
Quando entrevistarem o nosso Comandante João Rodrigues, ele dar-vos-á a conhecer, com mais pormenor, outras acções que a Associação quer levar a efeito, sendo a formação uma tónica importante. Deixe-nos apenas acrescentar que vivemos numa época de extrema dificuldade financeira, onde as nossas famílias e as nossas empresas atravessam um momento muito difícil da nossa história e por isso, muitas das vezes, os objectivos que parecem à partida fáceis de atingir, tornam-se muitas vezes difíceis de ultrapassar e, por isso, preferimos anunciar as coisas depois de se tornarem realidade ou de se consolidarem. Acima de tudo queremos que a nossa Associação continue a ser um baluarte na defesa das vidas e dos haveres das nossas populações, mas para isso também gostaríamos de sentir o seu apoio.


Fernando Neto – Que informação pode transmitir aos sócios sobre a situação financeira da colectividade em resultado das obras de ampliação do quartel?

Hélder Ambrósio – No momento que estou a responder às vossas questões, as Contas do Exercício do ano de 2012 ainda não foram aprovadas em Assembleia Geral, convocada pelo Senhor Presidente da Assembleia para o dia 28 do corrente mês; no entanto, podemos adiantar algumas notas importantes para conhecimento dos sócios e da comunidade. O processo de requalificação do nosso quartel sede encontra-se praticamente concluído e o conforto e a operacionalidade são as duas características que mais ressaltam à nossa vista. Foi um processo que necessitou de muito empenho, iniciado pela Direcção presidida pelo Sr. Dr. Américo Borges, continuado pela Direcção presidida pelo Sr. Fernando Pinto. Financeiramente, esta requalificação só foi possível graças à possibilidade de candidatarmos esta operação a financiamento comunitário, através do QREN. Esse financiamento, enquadrou-se num dos domínios do Eixo II do Programa Operacional de Valorização do Território, a Prevenção e Gestão de Riscos. No entanto, estas operações não são financiadas a 100%, sendo que a parte não financiada (contrapartida nacional) foi assegurada pela Câmara Municipal de Nelas. Como a autarquia não conseguiu cumprir com a sua responsabilidade financeira houve a necessidade de recorrer a um empréstimo bancário para que a obra evoluísse normalmente e que os compromissos assumidos com o empreiteiro fossem cumpridos. Claro que foram tempos difíceis e continuam a sê-lo, porque os Bombeiros estavam a contar e continuam a contar com a ajuda da Câmara. Com a obra paga e o empréstimo saldado a liquidez financeira da instituição desapareceu, porque todas as poupanças tiveram que ser utilizadas na obra. Esta terrível falta de dinheiro vivo não nos permite apostar na melhoria ou aquisição de novos equipamentos, quer para as novas instalações, quer para reforço operacional dos nossos bombeiros e, por isso, tivemos que recorrer novamente ao empréstimo bancário para cumprirmos com o compromisso que assumimos na candidatura para o VUCI. A Assembleia Geral Extraordinária realizada no passado dia quinze aprovou por unanimidade a autorização para movimentarmos a conta caucionada do empréstimo contraído no Crédito Agrícola, suportado pela hipoteca da Casa do Rossio, antigo posto da GNR. Os sócios presentes perceberam perfeitamente que a situação se deve à falta de pagamento da autarquia. Sabemos que esta dívida está inscrita no PAEL (Programa de Apoio à Economia Local) e esperamos que este problema se resolva o mais rápido possível.

Fernando Neto – A contribuição do estado e/ou poder local é suficiente para fazer face às necessidades com que a Associação se debate?

Hélder Ambrósio – As receitas estabelecidas pelos organismos que nos superintendem estão estabelecidas por decreto lei e são iguais para todos. Relativamente ao poder local julgo e tenho conhecimento de que há autarquias que dão muito valor aos bombeiros e que há outras que vão atribuindo valores simbólicos. Qualquer Associação Humanitária tem sempre muitas dificuldades financeiras porque também tem muitas despesas. Numa Associação desta natureza os apoios nunca se revelam suficientes para as nossas pretensões. Há sempre mais alguma coisa que podíamos fazer e que não se faz porque não é financeiramente possível. De vez em quando surgem oportunidades que não devemos desperdiçar, como foi o caso das candidaturas que se efectuaram para requalificar o quartel e adquirir a viatura, mas, mesmo essas, requerem algum esforço financeiro da nossa parte, uma vez que a taxa de financiamento não é 100%. De uma coisa temos a certeza: quanto melhores forem as condições que proporcionarmos aos voluntários que abdicam da sua vida pessoal em prol da comunidade, melhor servida estará essa comunidade. Penso que deveria ser esse o princípio dos nossos governantes.


Fernando Neto – Como pretendem conciliar a atividade de socorro e assistência humanitária, com a atividade cultural que tem sido desenvolvida pela Associação e que iniciativas pretendem levar a cabo que correspondam a esse desígnio?

Hélder Ambrósio – A Associação não tem que se preocupar com a actividade cultural porque ela não é a sua principal actividade. Poderá existir, mas, para isso, é necessário criar um grupo de trabalho no sentido de vir ajudar financeiramente a Instituição. A defesa dos haveres e da vida das pessoas já nos acarreta muitas responsabilidades e muito trabalho.


Fernando Neto – No seu discurso aquando do 82º aniversário da Associação referiu a dada altura ” é preciso continuar a trabalhar para melhorarmos as condições dos nossos bombeiros, continuar a apostar na sua formação e aproveitar os recursos humanos e técnicos que possuímos.”. Quer especificar esta ambição aos nossos leitores?


Hélder Ambrósio – Qualquer Direcção deve ir ao encontro das necessidades do Corpo Activo. Neste momento temos a noção de que as instalações precisam de ter uma temperatura ambiente melhorada e que há sempre a necessidade de melhorar os equipamentos/ferramentas de trabalho dos nossos homens, mas para isso precisamos primeiro de receber a verba da Câmara Municipal de Nelas, respeitante às obras. Todos os nossos Bombeiros têm conhecimento da situação e aguardam também uma solução rápida da autarquia. A outra vertente: formação. Estamos a trabalhar afincadamente com o Comando para que a formação seja uma constante e uma mais-valia para a nossa Associação. É uma matéria que o nosso Comandante vai desenvolver quando for entrevistado. Espero que o dinheiro nunca falte para dinamizarmos a Instituição no sentido de a consolidarmos como uma das melhores do distrito de Viseu. A massa humana existe e iremos promover iniciativas para imbuir mais jovens para a causa do voluntariado, jovens que com a sua capacidade intelectual tragam massa critica para a Associação e tragam novas funcionalidades.

Fernando Neto – As obras estão (praticamente) concluídas, vem aí uma nova viatura de combate a incêndios urbanos e industriais. Mesmo comparticipadas pelo QREN em 85%, exigirá um grande esforço financeiro e sabe-se que ainda há muito pouco conseguiram “livrar-se” do saldo a descoberto que utilizaram para as obras. Que atividades pretendem levar a cabo no sentido de obter verbas para fazer face a tamanhos encargos, tanto mais que é necessário manter uma estrutura profissional para fazer face a qualquer emergência e uma das fontes de receita das Associações - o transporte de doentes - segundo a maioria,  tem vindo a diminuir drasticamente?

Hélder Ambrósio – Relativamente ao processo de requalificação do nosso quartel, como já foi referido anteriormente, a Câmara Municipal de Nelas assumiu o montante necessário, assim como os juros relacionados com o empréstimo. Em relação ao VUCI e para fazer face de imediato aos nossos compromissos, foi aprovado em Assembleia Geral Extraordinária autorizar a utilização do empréstimo bancário, sendo que temos a promessa do pagamento dos juros por parte da autarquia. Esperamos receber esse dinheiro o mais rápido possível. Neste momento ainda não programámos qualquer actividade porque fomos apanhados neste mar de incertezas institucionais e, depois, o momento político, social e económico do país também não ajuda nada, pelo contrário. Naturalmente, vamos ter que desenvolver algumas actividades.

Fernando Neto – Como se encontra neste momento a divida da C. M. Nelas? Os protocolos têm vindo a ser cumpridos ou foi só assinatura de papéis?


Hélder Ambrósio – A Câmara Municipal de Nelas, como já foi dito, deve uma grande fatia da verba que se disponibilizou pagar para as obras de ampliação do quartel.
Como já referimos, aguardamos que esta situação se resolva o mais rapidamente possível. Era para ter sido em Dezembro, mas nesse mês o dinheiro destinado aos nossos Bombeiros não entrou nos cofres da autarquia. Já vamos em meados de Março e ainda não há luz ao fundo do túnel. Para além desta questão do financiamento da obra, que é importante, e que nos preocupa imenso, a colaboração e o relacionamento com a autarquia tem sido cordial. Neste momento, e directamente relacionado com o quotidiano da Associação, a autarquia assegura um funcionário e disponibiliza uma verba mensal (400,00€) para ajudar nas despesas inerentes ao serviço prestado, quer na emergência médica, quer no apoio à protecção civil. De uma forma mais indirecta e com benefícios para os associados, a autarquia protocolou com a Associação a possibilidade de os nossos sócios poderem utilizar com descontos alguns serviços disponibilizados pela autarquia (piscina, espaço internet, cinema, etc.)

Fernando Neto – Vamos entrar em ano eleitoral. Falando com franqueza, o que espera a AHBVCS dos novos poderes autárquicos?

Helder Ambrósio -Não vai haver novos poderes autárquicos, o que vai haver são eleições e de novo a possibilidade de escolher um executivo camarário. A Direcção dos Bombeiros já reuniu com a Câmara Municipal fazendo sentir quais são as nossas dificuldades. Seja qual for a equipa que ganhe as eleições autárquicas, recomendamos que tenha em linha de conta, nas suas Grandes Opções do Plano, verbas à altura para o papel que os soldados da paz têm na sociedade e que vão de encontro às necessidades e aos projectos que os Bombeiros têm possibilidade de concretizar.

Fernando Neto – Qual é atualmente o número de sócios pagantes da Associação?

Hélder Ambrósio – Nesta data a Associação tem 1385 sócios. Permita-me um reparo. Se os sócios não pagam quotas, não são sócios. Há muitos canenses que não são sócios, mas tenho confiança que poderemos aumentar esse número com um trabalho de sensibilização, não só na nossa freguesia, mas, também, nas outras cinco freguesias que pertencem à área da nossa actuação. É nesse trabalho que poderemos explicar que, por exemplo, o preço por quilómetro num serviço de ambulância para um sócio é bem diferente do do não sócio, bem como outras regalias que provêm de protocolos estabelecidos entre a Associação e algumas entidades locais. Contamos fazer a divulgação destes protocolos brevemente, e contamos com a colaboração do jornal para esse efeito.

Fernando Neto – “A nossa biblioteca tem que abrir as portas. Como não é possível arranjar verbas, mais uma vez, o voluntariado vai ter um papel importante. Os livros não podem continuar fechados.” Palavras suas, amigo Hélder. Para quando a reabertura da Biblioteca José Adelino ao público?

Hélder Ambrósio – Mantenho a afirmação de que os livros não podem ficar fechados, até porque estão a danificar-se. Há tempos, quando vi um documentário sobre a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, o ilustre orador, um conhecido Físico, Carlos Fiolhais, dizia que um célebre escritor tinha dito que o espaço mais livre que ele tinha vivido foi quando esteve preso, porque descobriu muitos livros e que o livro é um acesso à liberdade. Se a Associação tivesse liquidez financeira ou se houvesse um bom patrocinador era fácil abrir a Biblioteca. De qualquer forma, continua a ser um objectivo nosso abrir aquele espaço, mas não o podemos fazer sem o mínimo de qualidade e sem termos uma estrutura de voluntários que nos permitam preservá-lo. É um assunto que já foi muitas vezes à reunião de Direcção, mas sem resultados ainda positivos, porque tem havido avanços e recuos nos contactos que temos feito. Roma e Pavia não se fizeram num dia, como diz o povo, e por isso não podemos desistir deste nosso objectivo que é disponibilizar a Biblioteca aos leitores e à comunidade.

©Fernando Neto

domingo, 21 de abril de 2013

Entrevista a Celeste Borges – Presidente da União Cultural e Recreativa do Rossio



Fernando Neto – Em primeiro lugar bem-haja pela disponibilidade e amabilidade em conceder esta entrevista. Está a ser elogiada por toda a população Canense, esta iniciativa dos festejos carnavalescos em conjunto com a Associação do Paço. Poder-se-á concluir que valeu a pena tal harmonia?

Celeste Borges – Absolutamente. Mas, atenção, à «harmonia» o que é da «harmonia» e à «rivalidade» o que é da «rivalidade» entre os dois bairros. Não nos esqueçamos que está no nosso «despique» a verdadeira «alma» do nosso carnaval. E foi a tradicional «rivalidade» entre Paço e Rossio que o tornou ancestral. Portanto, para que não se façam confusões, a dita «harmonia» foi só em termos de organização deste evento, pois ambas as associações e, porventura, o público em geral, conseguiram rentabilizar e aproveitar melhor os recursos disponíveis. Quanto ao despique, ele manteve-se tão aceso como de costume. 

Fernando Neto – Carnaval, um dos mais velhos de Portugal. Muito se tem falado que esta “riqueza” da Vila poderia ser melhor aproveitada através da criação de uma Fundação. O que acha desta ideia e em caso de concordar com a sua criação por quem deveria ser dirigida?

Celeste Borges – Quem assim fala, não conhece o nosso carnaval nem, muito menos, Canas de Senhorim. Primeiro, há que conhecer a sua história. O nosso carnaval nasceu no simbolismo de uma rivalidade entre dois lugares - o Paço, como antigo lugar dos poderes político e religioso, e o Rossio, como lugar do povo. Claro que, hoje em dia, Canas já não se dispõe desta forma. Mas, no carnaval, esse simbolismo (luta de lugares, luta de classes, luta entre povo/poder) mantêm-se. E, é bom que assim se mantenha, porque essa é a marca da sua particular característica. No dia, em que o nosso carnaval não for assim – carnaval feito, festejado e rivalizado, pelas mãos e gestos dos dois bairros fundadores da nossa comunidade - haverá carnaval, mas nunca mais será o nosso carnaval canense. Está neste despique, a verdadeira alma do carnaval de Canas de Senhorim. Ora, sendo qualquer «alma» matéria exclusiva de Deus, diria que para presidente, da dita Fundação, só dava mesmo Ele – o próprio Deus.

Fernando Neto – Pedro Pinto, Presidente da Associação do Paço disse recentemente numa entrevista: “[…]achamos que o papel da Junta deveria ser mais interventivo ao longo da história do Carnaval. Talvez hoje o Carnaval de Canas fosse diferente.” Concorda com este ponto de vista?

Celeste Borges – E o que nós dizemos é que: a Junta ou a Câmara têm, apenas, que apoiar as associações no limite das suas possibilidades e das suas obrigações e compromissos políticos. De resto, isto não é matéria da sua competência nem da sua vocação. Ou, seja, cada um no seu lugar. Aliás, esta ideia de institucionalizar o movimento associativo, nem sequer é novo, já é velho. Embora, quem fale nisso se ache sempre muito moderno em relação aos demais. Mais ainda, acha-se até pós-moderno. Claro que, o nosso carnaval seria diferente. Para aí um corso abrasileirado com uns putativos candidatos a presidente de Junta de Freguesia lá pelo meio, armados em «cabeçudos».  

Fernando Neto – Todos sabemos que os subsídios oficiais atribuídos às Associações são escassos e não chegam para as despesas. Sendo o Carnaval de Canas tradicionalmente gratuito não seria melhor criar "sistemas" que o rentabilizem e que se juntariam às ajudas e subsídios? Por exemplo, licenças limitadas, para vendedores ambulantes com prioridade para os produtos da região, circulação interdita numa grande parte da vila com parques de estacionamento pagos à entrada, etc.?

Celeste Borges – Ó Sr. Neto, lá está você com as suas perguntas e os seus «sistemas» de comercialização. Aqui, por mais voltas que se dê todos os anos, a «massa» é sempre pouca. Imensos, só o trabalho e a vontade dos homens e das mulheres do Rossio. Dinheiro é preciso para o carnaval. Mas, carnaval não vive só de dinheiro. Vive, sobretudo, do trabalho, da vontade e da alegria do seu povo. No dia em que o carnaval de Canas de Senhorim for um mero comércio, depois do parque de estacionamento, dos vendedores ambulantes, etc, também lá chegarão os desfiles brasileiros em lugar dos nossos tradicionais corsos.

Fernando Neto – O que pensa da ideia de um “Museu do Carnaval”, e a sua possível localização, para salvaguardar o património etnográfico da maior festa de Canas de Senhorim?

Celeste Borges – Acho uma bela ideia. O Rossio está pronto a trabalhar em prol disso. E matéria-prima não lhe falta.
Fernando Neto – Noutros tempos, as mulheres punham um xaile nas costas, os homens prendiam o lenço de pescoço com uma caixa de fósforos, as carroças enfeitavam-se com mimosas, no Rossio andava-se às voltas no "Ferro de Engomar", no Paço dançava-se no Adro da Igreja... e assim era o nosso Carnaval! Do seu tempo de menina até hoje sente que a “Alma do Carnaval Canense” não se esgota no tempo?

Celeste Borges – Não, não esgota. Será que as almas podem ficar paradas no tempo? Claro que não podem. Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes, parafraseando o Zé Mário Branco. Mas, o espírito é o mesmo. Hoje e amanhã.
Fernando Neto - Como sabe isso?
Celeste Borges – Porque, dentro dos meus filhos, sinto esse espírito vivo. Ou seja, essa mesma alma continua viva!
Fernando Neto – Para terminar quer deixar aqui aos nossos leitores as futuras iniciativas da Associação do Rossio?

Celeste Borges – Primeiro pagar dívidas. Preparar as Marchas de S. João e preparar as eleições dos novos corpos gerentes.

Entrevista a Agostinho Matias - Colecionador Objetos Escuteiros



Quase todo o ser humano já foi, ou é colecionador. Quem nunca teve uma coleção ou pelo menos tentou colecionar algum tipo de objeto ao longo da vida?! Autógrafos, bonecas, calendários, camisolas de clubes de futebol, postais, cartões, notas e moedas, filmes, livros, obras de arte, pacotes de açúcar, sapatos, rótulos de cerveja ou vinho e outros. São dezenas de tipos de itens que compõem a diversidade das coleções. Dizem que o colecionismo para além de contribuir para a preservação da memória vinculada à história de cada indivíduo, também pode ser um exercício eficiente para o controle da ansiedade e do stress.

Fernando Neto – Amigo Agostinho, a psicóloga Tatiana Maria Sanchez  afirma que; “Colecionar é uma forma de desenvolver algum nível de controle sobre o mundo representado pelos objetos colecionados e isso pode trazer alívio da angústia e da ansiedade”. Que me diz a esta maneira de pensar o colecionismo?
Agostinho Matias – É uma boa maneira de pensar o colecionismo, pois nos momentos que me dedico ao colecionismo, a organizar e catalogar os objetos, “desligo” do mundo que me rodeia e empreendo uma viajem ao redor do planeta, pelo fato de colecionar objetos de todo o mundo, e isso de fato alivia o stress a faz esquecer aquilo que nos atormenta.

Fernando Neto – Quando nasceu esta sua paixão por colecionar objetos de alguma maneira ligada ao Escutismo?
 Agostinho MatiasComo qualquer escuteiro, nas atividades por onde ia passando, ia trazendo objetos, recordações das atividades que juntava: era um “ajuntador” de objetos escutistas.
O despertar, penso que surgiu em 1997, quando em Paris participei na Jornada Mundial da Juventude, onde a par das muitas atividades da JMJ foi organizada para os Escuteiros de todo o mundo presentes, uma noite com atividades tipicamente escutistas. Uma miúda Romena, com uma farda velha, que exibia um único distintivo pediu-me para o trocar pelo meu distintivo de promessa, o nosso distintivo de promessa e muito importante para nós, tal como o nosso lenço e por isso posso considerar este o primeiro distintivo da minha coleção, muito embora já tivesse muitos outros anteriormente.
A paixão surgiu em 2002, quando conheci e me tornei sócio do Clube Português de Colecionadores de Objetos Escutistas, a partir daí fui participando em encontros de colecionadores, fui enviando pedidos de troca a outros sócios e nunca mais parei. Mais recentemente o facebook trouxe uma vertente mais internacional, pois permite colocar numa montra mundial aquilo que temos para troca, ver o que os outros têm e combinar trocas (o meu perfil do facebook é quase exclusivamente para esse fim)

Fernando Neto – Uma coleção resulta do trabalho que se tem para reunir um conjunto de objetos da mesma natureza ou que tem qualquer relação entre si. Por certo estará sempre atento aos novos objetos que vão saindo e terá contactos para trocas. Fale-nos de como adquire os objetos e das trocas que efetua.
Agostinho Matias Não sou um “doente” do colecionismo escutista, mas vou juntando alguns objetos interessantes, de todo o mundo. A minha coleção principal pretende catalogar, dentro de cada país e/ou associação (alguns países têm mais que uma associação, Portugal tem duas, por exemplo) os três-quatro distintivos representativos: de associação, de promessa, bandeira, listel, fivela de cinto. Tenho já alguns amigos em todo o mundo, com quem troco regularmente, nomeadamente no México, Perú, Malásia, Hong Kong, Venezuela, Brasil, Equador, Argentina, Espanha, Japão, Coreia, o facebook ajuda-me a ir descobrindo mais alguns, para trocas pontuais.
Os encontros de colecionadores são também uma boa fonte para conseguir novos objetos, mas sem dúvida que o facebook é, neste momento, o principal meio de trocas.
Não posso deixar de referir, que em 2011, organizei na Lapa do Lobo, um encontro nacional que juntou cerca de 40 colecionadores de Portugal, Espanha e Inglaterra e onde estiveram alguns objetos avaliados em alguns milhares de euros, muitos milhares… O set de três selos emitidos em Mafeking, pelo próprio Baden-Powell, em 1900 e considerados os primeiros selos escutistas, mesmo antes da fundação do escutismo, avaliados em mais de 12.000 € estiveram no encontro.

Fernando Neto – Toda a coleção tem o seu método de organização e conservação. Tem a sua coleção organizada por itens ou está organizada conforme a entrada dos objetos na coleção? Com que regularidade é feita a sua manutenção?
Agostinho MatiasNormalmente dedico algum tempo das férias, alguns feriados ou tardes de domingo à organização dos objetos que vão chegando.
A minha coleção principal está organizada por países, cada folha tem o nome da associação, em Português e na língua nativa ou em inglês, a bandeira e os distintivos representativos, os pins e as fivelas de cinto têm placard’s feitos à medida.
Mais recentemente comecei uma a coleção de Baden-Powell, fundador do escutismo, são distintivos de vários países, oficiais ou meramente decorativos onde o único motivo comum é a imagem do Fundador.
Uma terceira coleção, tem como motivo comum a pomba da paz, símbolo utilizado mundialmente, em 2007, nas comemorações do centenário do movimento escutista, são também distintivos de origens diversas com um desenho comum.
Tenho algumas centenas de selos escutistas, mas esses ainda não são uma coleção, são ainda um ajuntamento, é uma tarefa complexa contar uma história em que as ilustrações são selos de correio, e exige algumas técnicas e materiais que eu ainda não tenho, mas estou a tratar disso… 

Fernando Neto – Referindo-se ao colecionismo há quem afirme que às vezes, essa prática torna-se um vício e, como um vício é “um vazio d'alma” não haverá aqui uma contradição? Colecionar enche ou não a alma de quem o faz?
Agostinho Matias Claro que nos enche a alma, e a casa, e esvazia a carteira, colecionar leva-nos a lugares e a épocas a que não iríamos de outra forma, é um vicio educativo que nos faz escrever história.

Fernando Neto – Neste momento quantas peças terá já em seu poder, a que para si tem mais valor e qual a que tem em maior numero?
Agostinho MatiasTenho algumas centenas, neste tipo de coleção, cujo número de peças é teoricamente infinito, temos que balizar muito bem os limites daquilo que queremos, não podemos dizer vou colecionar distintivos escutistas porque corremos o risco de ter alguns milhares de peças, mas não ter uma maneira lógica de as organizar.
Na minha coleção principal tenho distintivos de setenta países e/ou territórios, grande parte deles trocados com escuteiros desses países, pins tenho cerca duzentos e fivelas de cinto cerca de sessenta.
Tenho o “Escutismo Para Rapazes”, livro escrito por Baden-Powell e base de todo o método escutista, escrito em seis línguas diferentes, entre as quais o Japonês e o Coreano.
Destaco o distintivo da Roménia, por ser aquele que despertou em mim este gosto de colecionar estes objetos.

Fernando Neto – Inerente às suas funções de escuteiro e de lidar com muitos jovens, que conselho lhes daria para aqueles que queiram abraçar essa prática de colecionar objetos?
Agostinho MatiasInscrevam-se no Clube Português de Colecionadores de Objetos Escutistas, a listagem de associados tem muitos contatos e muitos sócios são verdadeiros especialistas, que ajudam os mais novos, nos encontros os sócios mais antigos e experientes dão muitas objetos interessantes que têm em grande número aos sócios mais novos.
O colecionismo, em geral, faz-nos estudar os temas que colecionamos e isso pode ajudar no percurso escolar.
Quem, como eu, troca objetos com colecionadores de todo o mundo, desenvolve as línguas estrangeiras, nomeadamente o Inglês e o Espanhol.