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domingo, 21 de abril de 2013

Entrevista a Agostinho Matias - Colecionador Objetos Escuteiros



Quase todo o ser humano já foi, ou é colecionador. Quem nunca teve uma coleção ou pelo menos tentou colecionar algum tipo de objeto ao longo da vida?! Autógrafos, bonecas, calendários, camisolas de clubes de futebol, postais, cartões, notas e moedas, filmes, livros, obras de arte, pacotes de açúcar, sapatos, rótulos de cerveja ou vinho e outros. São dezenas de tipos de itens que compõem a diversidade das coleções. Dizem que o colecionismo para além de contribuir para a preservação da memória vinculada à história de cada indivíduo, também pode ser um exercício eficiente para o controle da ansiedade e do stress.

Fernando Neto – Amigo Agostinho, a psicóloga Tatiana Maria Sanchez  afirma que; “Colecionar é uma forma de desenvolver algum nível de controle sobre o mundo representado pelos objetos colecionados e isso pode trazer alívio da angústia e da ansiedade”. Que me diz a esta maneira de pensar o colecionismo?
Agostinho Matias – É uma boa maneira de pensar o colecionismo, pois nos momentos que me dedico ao colecionismo, a organizar e catalogar os objetos, “desligo” do mundo que me rodeia e empreendo uma viajem ao redor do planeta, pelo fato de colecionar objetos de todo o mundo, e isso de fato alivia o stress a faz esquecer aquilo que nos atormenta.

Fernando Neto – Quando nasceu esta sua paixão por colecionar objetos de alguma maneira ligada ao Escutismo?
 Agostinho MatiasComo qualquer escuteiro, nas atividades por onde ia passando, ia trazendo objetos, recordações das atividades que juntava: era um “ajuntador” de objetos escutistas.
O despertar, penso que surgiu em 1997, quando em Paris participei na Jornada Mundial da Juventude, onde a par das muitas atividades da JMJ foi organizada para os Escuteiros de todo o mundo presentes, uma noite com atividades tipicamente escutistas. Uma miúda Romena, com uma farda velha, que exibia um único distintivo pediu-me para o trocar pelo meu distintivo de promessa, o nosso distintivo de promessa e muito importante para nós, tal como o nosso lenço e por isso posso considerar este o primeiro distintivo da minha coleção, muito embora já tivesse muitos outros anteriormente.
A paixão surgiu em 2002, quando conheci e me tornei sócio do Clube Português de Colecionadores de Objetos Escutistas, a partir daí fui participando em encontros de colecionadores, fui enviando pedidos de troca a outros sócios e nunca mais parei. Mais recentemente o facebook trouxe uma vertente mais internacional, pois permite colocar numa montra mundial aquilo que temos para troca, ver o que os outros têm e combinar trocas (o meu perfil do facebook é quase exclusivamente para esse fim)

Fernando Neto – Uma coleção resulta do trabalho que se tem para reunir um conjunto de objetos da mesma natureza ou que tem qualquer relação entre si. Por certo estará sempre atento aos novos objetos que vão saindo e terá contactos para trocas. Fale-nos de como adquire os objetos e das trocas que efetua.
Agostinho Matias Não sou um “doente” do colecionismo escutista, mas vou juntando alguns objetos interessantes, de todo o mundo. A minha coleção principal pretende catalogar, dentro de cada país e/ou associação (alguns países têm mais que uma associação, Portugal tem duas, por exemplo) os três-quatro distintivos representativos: de associação, de promessa, bandeira, listel, fivela de cinto. Tenho já alguns amigos em todo o mundo, com quem troco regularmente, nomeadamente no México, Perú, Malásia, Hong Kong, Venezuela, Brasil, Equador, Argentina, Espanha, Japão, Coreia, o facebook ajuda-me a ir descobrindo mais alguns, para trocas pontuais.
Os encontros de colecionadores são também uma boa fonte para conseguir novos objetos, mas sem dúvida que o facebook é, neste momento, o principal meio de trocas.
Não posso deixar de referir, que em 2011, organizei na Lapa do Lobo, um encontro nacional que juntou cerca de 40 colecionadores de Portugal, Espanha e Inglaterra e onde estiveram alguns objetos avaliados em alguns milhares de euros, muitos milhares… O set de três selos emitidos em Mafeking, pelo próprio Baden-Powell, em 1900 e considerados os primeiros selos escutistas, mesmo antes da fundação do escutismo, avaliados em mais de 12.000 € estiveram no encontro.

Fernando Neto – Toda a coleção tem o seu método de organização e conservação. Tem a sua coleção organizada por itens ou está organizada conforme a entrada dos objetos na coleção? Com que regularidade é feita a sua manutenção?
Agostinho MatiasNormalmente dedico algum tempo das férias, alguns feriados ou tardes de domingo à organização dos objetos que vão chegando.
A minha coleção principal está organizada por países, cada folha tem o nome da associação, em Português e na língua nativa ou em inglês, a bandeira e os distintivos representativos, os pins e as fivelas de cinto têm placard’s feitos à medida.
Mais recentemente comecei uma a coleção de Baden-Powell, fundador do escutismo, são distintivos de vários países, oficiais ou meramente decorativos onde o único motivo comum é a imagem do Fundador.
Uma terceira coleção, tem como motivo comum a pomba da paz, símbolo utilizado mundialmente, em 2007, nas comemorações do centenário do movimento escutista, são também distintivos de origens diversas com um desenho comum.
Tenho algumas centenas de selos escutistas, mas esses ainda não são uma coleção, são ainda um ajuntamento, é uma tarefa complexa contar uma história em que as ilustrações são selos de correio, e exige algumas técnicas e materiais que eu ainda não tenho, mas estou a tratar disso… 

Fernando Neto – Referindo-se ao colecionismo há quem afirme que às vezes, essa prática torna-se um vício e, como um vício é “um vazio d'alma” não haverá aqui uma contradição? Colecionar enche ou não a alma de quem o faz?
Agostinho Matias Claro que nos enche a alma, e a casa, e esvazia a carteira, colecionar leva-nos a lugares e a épocas a que não iríamos de outra forma, é um vicio educativo que nos faz escrever história.

Fernando Neto – Neste momento quantas peças terá já em seu poder, a que para si tem mais valor e qual a que tem em maior numero?
Agostinho MatiasTenho algumas centenas, neste tipo de coleção, cujo número de peças é teoricamente infinito, temos que balizar muito bem os limites daquilo que queremos, não podemos dizer vou colecionar distintivos escutistas porque corremos o risco de ter alguns milhares de peças, mas não ter uma maneira lógica de as organizar.
Na minha coleção principal tenho distintivos de setenta países e/ou territórios, grande parte deles trocados com escuteiros desses países, pins tenho cerca duzentos e fivelas de cinto cerca de sessenta.
Tenho o “Escutismo Para Rapazes”, livro escrito por Baden-Powell e base de todo o método escutista, escrito em seis línguas diferentes, entre as quais o Japonês e o Coreano.
Destaco o distintivo da Roménia, por ser aquele que despertou em mim este gosto de colecionar estes objetos.

Fernando Neto – Inerente às suas funções de escuteiro e de lidar com muitos jovens, que conselho lhes daria para aqueles que queiram abraçar essa prática de colecionar objetos?
Agostinho MatiasInscrevam-se no Clube Português de Colecionadores de Objetos Escutistas, a listagem de associados tem muitos contatos e muitos sócios são verdadeiros especialistas, que ajudam os mais novos, nos encontros os sócios mais antigos e experientes dão muitas objetos interessantes que têm em grande número aos sócios mais novos.
O colecionismo, em geral, faz-nos estudar os temas que colecionamos e isso pode ajudar no percurso escolar.
Quem, como eu, troca objetos com colecionadores de todo o mundo, desenvolve as línguas estrangeiras, nomeadamente o Inglês e o Espanhol.

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