Quase todo o ser humano já foi, ou é colecionador.
Quem nunca teve uma coleção ou pelo menos tentou colecionar algum tipo de
objeto ao longo da vida?! Autógrafos, bonecas, calendários, camisolas de clubes
de futebol, postais, cartões, notas e moedas, filmes, livros, obras de arte,
pacotes de açúcar, sapatos, rótulos de cerveja ou vinho e outros. São dezenas
de tipos de itens que compõem a diversidade das coleções. Dizem que o
colecionismo para além de contribuir para a preservação da memória vinculada à
história de cada indivíduo, também pode ser um exercício eficiente para o
controle da ansiedade e do stress.
Fernando Neto – Amigo Agostinho, a psicóloga Tatiana Maria Sanchez afirma que; “Colecionar é uma forma de
desenvolver algum nível de controle sobre o mundo representado pelos objetos
colecionados e isso pode trazer alívio da angústia e da ansiedade”. Que me diz
a esta maneira de pensar o colecionismo?
Agostinho
Matias – É uma boa
maneira de pensar o colecionismo, pois nos momentos que me dedico ao
colecionismo, a organizar e catalogar os objetos, “desligo” do mundo que me
rodeia e empreendo uma viajem ao redor do planeta, pelo fato de colecionar
objetos de todo o mundo, e isso de fato alivia o stress a faz esquecer aquilo
que nos atormenta.
Fernando Neto – Quando nasceu esta sua paixão por
colecionar objetos de alguma maneira ligada ao Escutismo?
Agostinho Matias – Como qualquer escuteiro, nas
atividades por onde ia passando, ia trazendo objetos, recordações das
atividades que juntava: era um “ajuntador” de objetos escutistas.
O despertar, penso que surgiu em 1997, quando em Paris
participei na Jornada Mundial da Juventude, onde a par das muitas atividades da
JMJ foi organizada para os Escuteiros de todo o mundo presentes, uma noite com
atividades tipicamente escutistas. Uma miúda Romena, com uma farda velha, que
exibia um único distintivo pediu-me para o trocar pelo meu distintivo de
promessa, o nosso distintivo de promessa e muito importante para nós, tal como
o nosso lenço e por isso posso considerar este o primeiro distintivo da minha
coleção, muito embora já tivesse muitos outros anteriormente.
A paixão surgiu em 2002, quando conheci e me tornei
sócio do Clube Português de Colecionadores de Objetos Escutistas, a partir daí
fui participando em encontros de colecionadores, fui enviando pedidos de troca
a outros sócios e nunca mais parei. Mais recentemente o facebook trouxe uma
vertente mais internacional, pois permite colocar numa montra mundial aquilo
que temos para troca, ver o que os outros têm e combinar trocas (o meu perfil
do facebook é quase exclusivamente para esse fim)
Fernando Neto – Uma coleção resulta do trabalho que se
tem para reunir um conjunto de objetos da mesma natureza ou que tem qualquer
relação entre si. Por certo estará sempre atento aos novos objetos que vão
saindo e terá contactos para trocas.
Fale-nos de como adquire os objetos e das trocas que efetua.
Agostinho Matias – Não sou um “doente” do
colecionismo escutista, mas vou juntando alguns objetos interessantes, de todo
o mundo. A minha coleção principal pretende catalogar, dentro de cada país e/ou
associação (alguns países têm mais que uma associação, Portugal tem duas, por exemplo)
os três-quatro distintivos representativos: de associação, de promessa,
bandeira, listel, fivela de cinto. Tenho já alguns amigos em todo o mundo, com
quem troco regularmente, nomeadamente no México, Perú, Malásia, Hong Kong,
Venezuela, Brasil, Equador, Argentina, Espanha, Japão, Coreia, o facebook
ajuda-me a ir descobrindo mais alguns, para trocas pontuais.
Os encontros de colecionadores são também uma boa
fonte para conseguir novos objetos, mas sem dúvida que o facebook é, neste
momento, o principal meio de trocas.
Não posso deixar de referir, que em 2011, organizei na
Lapa do Lobo, um encontro nacional que juntou cerca de 40 colecionadores de
Portugal, Espanha e Inglaterra e onde estiveram alguns objetos avaliados em alguns
milhares de euros, muitos milhares… O set de três selos emitidos em Mafeking,
pelo próprio Baden-Powell, em 1900 e considerados os primeiros selos
escutistas, mesmo antes da fundação do escutismo, avaliados em mais de 12.000 €
estiveram no encontro.
Fernando Neto – Toda a coleção tem o seu método de
organização e conservação. Tem a sua coleção organizada por itens ou está
organizada conforme a entrada dos objetos na coleção? Com que regularidade é
feita a sua manutenção?
Agostinho Matias – Normalmente dedico algum tempo
das férias, alguns feriados ou tardes de domingo à organização dos objetos que
vão chegando.
A minha coleção principal está organizada por países,
cada folha tem o nome da associação, em Português e na língua nativa ou em
inglês, a bandeira e os distintivos representativos, os pins e as fivelas de
cinto têm placard’s feitos à medida.
Mais recentemente comecei uma a coleção de
Baden-Powell, fundador do escutismo, são distintivos de vários países, oficiais
ou meramente decorativos onde o único motivo comum é a imagem do Fundador.
Uma terceira coleção, tem como motivo comum a pomba da
paz, símbolo utilizado mundialmente, em 2007, nas comemorações do centenário do
movimento escutista, são também distintivos de origens diversas com um desenho
comum.
Tenho algumas centenas de selos escutistas, mas esses
ainda não são uma coleção, são ainda um ajuntamento, é uma tarefa complexa
contar uma história em que as ilustrações são selos de correio, e exige algumas
técnicas e materiais que eu ainda não tenho, mas estou a tratar disso…
Fernando Neto – Referindo-se ao colecionismo há quem
afirme que às vezes, essa prática torna-se um vício e, como um vício é “um vazio
d'alma” não haverá aqui uma contradição? Colecionar enche ou não a alma de quem
o faz?
Agostinho Matias – Claro que nos enche a alma, e a
casa, e esvazia a carteira, colecionar leva-nos a lugares e a épocas a que não
iríamos de outra forma, é um vicio educativo que nos faz escrever história.
Fernando Neto – Neste momento quantas peças terá já em
seu poder, a que para si tem mais valor e qual a que tem em maior numero?
Agostinho Matias – Tenho algumas centenas, neste
tipo de coleção, cujo número de peças é teoricamente infinito, temos que
balizar muito bem os limites daquilo que queremos, não podemos dizer vou
colecionar distintivos escutistas porque corremos o risco de ter alguns
milhares de peças, mas não ter uma maneira lógica de as organizar.
Na minha coleção principal tenho distintivos de
setenta países e/ou territórios, grande parte deles trocados com escuteiros
desses países, pins tenho cerca duzentos e fivelas de cinto cerca de sessenta.
Tenho o “Escutismo Para Rapazes”, livro escrito por
Baden-Powell e base de todo o método escutista, escrito em seis línguas
diferentes, entre as quais o Japonês e o Coreano.
Destaco o distintivo da Roménia, por ser aquele que
despertou em mim este gosto de colecionar estes objetos.
Fernando Neto – Inerente às suas funções de escuteiro
e de lidar com muitos jovens, que conselho lhes daria para aqueles que queiram
abraçar essa prática de colecionar objetos?
Agostinho Matias – Inscrevam-se no Clube Português
de Colecionadores de Objetos Escutistas, a listagem de associados tem muitos
contatos e muitos sócios são verdadeiros especialistas, que ajudam os mais
novos, nos encontros os sócios mais antigos e experientes dão muitas objetos
interessantes que têm em grande número aos sócios mais novos.
O colecionismo, em geral, faz-nos estudar os temas que
colecionamos e isso pode ajudar no percurso escolar.
Quem, como eu, troca objetos com colecionadores de
todo o mundo, desenvolve as línguas estrangeiras, nomeadamente o Inglês e o
Espanhol.

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